Fundação Maitreya
 
Um Elo - Agostinho da Silva

de Pedro Teixeira da Mota

em 12 Jan 2015

  Na já longa história da Humanidade tem-se acentuado nestes últimos tempos a crescente necessidade da passagem do exclusivismo e dogmatismo religioso, com todas as consequências separatistas, dualistas e violentas, para uma coexistência mais dialogante e harmoniosa entre os vários credos e culturas e para o reconhecimento dos princípios, seres e energias, quer individuais quer universais, que estão por detrás das diferentes crenças, dogmas, práticas e realizações dos diversos povos e grupos. E talvez possamos apontar no Ocidente os humanistas dos sécs. XV e XVI como os precursores desta importante transformação ou transmutação e evocar os nomes de Pico della Mirandola (defendendo as suas 900 teses baseadas nas tradições caldaicas, gregas, árabes, cristãs, indianas), Erasmo de Roterdão (com uma vasta obra pacifista e desmistificadora de estultas aparências e superstições, bem como defensora da religião do espírito e da caridade),

Do Trânsito das Religiões à Religião Planetária


Thomas More (apresentando uma religião natural universal, na “Utopia”), ou ainda o francês Guillaume Budé com o seu Trânsito do Helenismo ao Cristianismo, que de certo modo serve de mote para este artigo escrito (primeiro como uma epístola dedicada a Agostinho da Silva e aos leitores da Nova Águia, no nº 3, e agora revisto a acrescentado para o Spiritus Site (www.fundaçaomaitreya.com) para os que nos nossos dias sentem mais a necessidade da passagem da unilateralidade das religiões para a coexistência pacífica e dialogante no seio, ou sob as bênçãos, da magna religião perene do Espírito. Não é difícil descortinarmos alguns dos principais factores que contribuem para a crescente unificação espiritual, tal como as populações multi-religiosas, os casamentos entre pessoas de credos religiosos diversos, os frequentes encontros de diálogo ou oração juntando fiéis das diferentes tradições e finalmente os contributos da comparatividade religiosa, da psicologia transpessoal e de alguns seres mais carismáticos.
Um meio parece porém elevar-se sobre os demais na sua urgência e magnitude de alcance: a publicação de um ou mais manuais de ensino religioso, mostrando ou ensinando desde cedo como as realidades mais elevadas são as mesmas, ainda que abordadas ou denominadas diferentemente, e que os ritos, práticas ou experiências são também comuns e idênticos, diferenciando-se apenas nas formas e preceitos exteriores, pois as fundamentações são semelhantes quer de origem telúrica ou celestial, quer por razões corporais, anímicas ou espirituais.

É assim importante que cada vez mais qualquer pessoa que sinta vontade de participar num culto de qualquer uma das religiões possa fazê-lo sem receios ou repulsões, ao compreender o que se está a passar e ao ser compreendida e acolhida, participando assim consciente e gratamente nesse acto de elevação energética e invocação dos grandes valores, seres e níveis espirituais, ou sobretudo da Divindade, que é a Fonte de todos eles, certamente que em comunhão com os mestres fundadores e os seus discípulos, ou seja a Igreja ou assembleia enquanto corpo subtil que anima todos os que, no templo orientado ou na comunidade de partilha ou de adoração, se encontram.
Importante nesta participação será a pessoa sentir-se à vontade ou livre e universal na sua religiosidade ou espiritualidade, pois ainda que seja por nascimento, tradição ou opção membro de qualquer uma das religiões, ela não está fechada nas separatividades e exclusividades, antes comunga na Essência comum espiritual presente em todos os seres e que se torna mais sensível ou manifesta na experiência da oração, do culto, da paz, da luz, da palavra e portanto da comunhão com o já referido corpo místico já não só da Igreja particular mas da igreja ou congregação da humanidade constituído pelos profetas, santos, mestres ou guias, e todos os fiéis de amor ou menos amor…

Neste caminho ascensional da Humanidade, tal como o de Dante ao Paraíso, conduzido pela divina Sabedoria ou Beatriz, destacaram-se no séc. XX em Portugal algumas individualidades, como a de Agostinho da Silva, do qual iremos evocar alguns aspectos que poderão impulsionar-nos a compreender e participar mais luminosamente nesta passagem e desafio iniciático dos tempos.
Tendo conversado regularmente durante vários anos com este notável pedagogo, relembro antes de mais algo essencial nele: «a palavra conversa tem a mesma origem etimológica que converter, o que está implicado quando um homem conversa com outro, é uma conversão de qualquer deles ou dos dois ao mesmo tempo – é converter-se aqui, converter-se a qualquer coisa que entenda os dois como as duas partes, as metades de uma certa unidade. Quando conversamos com uma pessoa, no fim de contas queremos converter-nos ou converter a nossa dualidade numa unidade superior».
Em verdade, fui testemunhando nas muitas conversas que travámos, a sua universalidade, ouvindo-o defender a unidade espiritual das religiões, meras estradas para o mesmo cimo da montanha de uma vida terrena valiosamente trabalhada, e plenificada com a ligação mais ou menos sentida com Deus, o Espírito ou o Todo, ou o que lhe quisermos chamar, conforme ele nos diz em 1987: «que ideologias e filosofias cedam logo seu lugar à sabedoria que lhes é rainha; e que a contemplação das essências, qualquer que seja o nome que se lhes dê, jamais faça perder a atenção ao fenómeno por mais insignificante que pareça»…

Claro que Agostinho da Silva tinha dentro da sua ampla e fundamentada universalidade e imprevisibilidade criativa certas afinidades electivas, podendo-se até destrinçar ou deslindar veios que o alimentavam e que resultavam tanto de níveis genéticos, geográficos e culturais como também da arcânica (ou misteriosa…) génese da sua individualidade e da sua viagem de espírito descido à terra e depois navegando ou bulinando (expressão que ele tanto gostava…) nos vários mares e continentes. Ao considerarmos essas forças anímicas e culturais que recebeu familiarmente e já estudante jovem nos contactos com o seu professor o genial filósofo e matemático Leonardo Coimbra (ou com o vate Pascoaes, o historiador Jaime Cortesão e outros membros da Renascença Portuguesa, reunidos à volta da revista Águia), e as que desenvolveu enquanto português das Sete Partidas, é notório que ele é um elo importante da Tradição Perene em Portugal, um anel da corrente luminosa que atravessa

como um fio as contas do rosário da nossa história, vindo na esteira espumosa ou ardente, por exemplo, de Damião de Góis, Camões, Antero e Pessoa, dinamizando espiritualmente e fazendo avançar mais umas milhas (os que com eles e as suas obras sintonizarem) a travessia no oceano que nos leva das trevas à luz, do sofrimento à beatitude. Ora se Antero de Quental procurara no Budismo e na filosofia transcendentalista um meio de aprofundar o facto religioso já não como realidade decadente ou só devocional mas sobretudo como meio de libertação social, filosófica e consciencial, chegando mesmo a defender um Budismo coroando o Helenismo, será com Fernando Pessoa que encontramos mais funda a demanda ocultista e esotérica, tão ligada às religiões na busca do conhecimento espiritual e divino, e que no seu caso passa, na viajem evolutiva da vida, do paganismo transcendental para a gnose iniciática, onde se afirma oposto a todas as religiões organizadas, embora em alguns textos de teorização do V. Império caracterize este como a reunificação das várias religiões, partes dispersas do corpo de Osíris. O seu envolvimento com algumas energias mais complexas, num meio ainda bastante limitado, acabaram por acarretar uma morte precoce, não nos deixando o que se poderia esperar do seu génio…

Já Agostinho da Silva, consciente da Tradição Perene, aprofundou-a em certos aspectos com originalidade: em primeiro, reflectindo filosófico-teologicamente o misterioso Espírito santo, na esteira de Dinis e Isabel, Joaquim de Fiora, P. António Vieira e Fernando Pessoa, nomeadamente quando escreve em Outubro de 1986 sobre a missão da Comunidade dos Povos da Língua Portuguesa: «guiarem o mundo ao reconhecimento da sua verdadeira essência: a do espírito na matéria esplendendo», acrescentando: «é o Espírito o traço comum de sujeito e objecto, por onde se estabelece todo o diálogo; é o Espírito a fonte indefinível de onde a vida pode fluir sob quaisquer formas, aquelas que eu conheço e venero ou não, e aquelas de que nem sequer posso ter uma ideia; é o Espírito que anima os que estão comigo e os meus adversários; foi o Espírito quem me trouxe o Cristo e quem a outros trouxe Buda, Maomé e Lau-Tseu; foi o Espírito quem me deu Eckart e quem me deu a geometria analítica; nele se reconciliam Aristóteles e Platão…», apontando ainda para algo quase impossível nos nossos dias, tão manipulados: «uma política sem partidos, nem sequer o único, é a condição indispensável para que o reino se instaure…»

Em segundo lugar, com originalidade viu próximo o reino ou era do Espírito Santo, para o que contribuía tanto o seu franciscanismo (recebida em parte de Jaime Cortesão, que tanto valorizava a vivência simples de S. Francisco de Assis e dos espirituais que o seguiram) como os impulsos fraternos brasileiros, alguns sincretizados no candomblé, isto é, o que para o Brasil foi transplantado ou enxertado, nas tradições dos pagés índios ou na dos cristãos, das religiões ancestrais africanas, das quais aliás gostava de narrar um conto cosmogónico tribal do Ruanda no qual Deus, para evitar problemas, deixava uma parte ou imagem de si dentro do coração de cada homem e mulher, que a deveriam consultar e desenvolver, numa “solução de tornar-se ao mesmo tempo transcendente e imanente (...) ou seja, que o Deus único, pode aparecer de várias maneiras, ser olhado com vários atributos e ter soluções diversas perante um problema».

14- Desta sua ampla transversalidade e abertura religiosa brota já em 1971 o desejo da criação de Cadernos Teológicos, ou talvez melhor Religiosos, afirmando: «não sou mais do que aprendiz de religião, uma espécie de catecúmeno, embora com duas convicções: uma, a central, alicerçada, além de tudo, pelo que meditei no candomblé da casa da grande Olga de Alaketu, e que é a da Fé que me liga às crenças joaquimitas e, portanto, às mais puras dos nossos povos de origem portuguesa ou aos portugueses aculturados, a segunda periférica, a de procurá-la e encontrá-la em todas as religiões, quer as do Deus ausente, quer as do Deus presente». Nesta segunda parte, a do Deus ausente, entenda-se a afinidade com o Taoismo e o Budismo Zen, que o auxiliava não só a manter-se no desprendimento e num certo vazio algo franciscano como a sentir que as descobertas da Física moderna confirmavam os dados dos místicos, dos iniciados ou da gente simples de coração. 15-Relembremos ainda que Agostinho da Silva consagrou, nesta linha ecuménica, três Cadernos de Divulgação aos Colóquios de Erasmo, à Utopia de Thomas More, e à vida de Vivekananda, o discípulo do notável místico Ramakrishna, grande defensor da unidade das religiões.

Aliás em 1986, confirmando a importância da sua sintonia com Ramakrishna (como eu vim muitos anos depois a relembrar e a palestrar em Calcuta, no Instituto de Cultura de Ramkrishna), escrevia: «ando muito pelas linhas de pensamento ou sentimento de um Ramakrishna ou de um Espinosa, sua contrapartida filosófica, de cristãos, maometanos, animistas e budistas ou hinduístas, que a todos desejaria abraçar naquele catolicismo, naquele universalismo».
Oiçamo-lo então ainda um pouco mais neste tema tão actual da religião universal (que é o significado etimológico de católico...), a do Espírito, sobretudo face aos surtos ocasionais de violência religiosa-racial ou a actos ou afirmações infantis ou irresponsáveis de alguns representantes das religiões, da política ou dos media: «Gosto de pensar um Portugal historicamente monoteísta e que estivesse frequentemente procurando o essencial do que já foi ou é, hebraico, cristão e muçulmano; mais ainda que pusesse, objectivo, o que as três religiões têm em comum; que o comparasse em seguida com toda a variedade oriental, africana e índia, e ainda aqui isolasse o comum, para não falarmos já de gregos ou romanos; que fizesse o esforço de sondar ateísmos, e que acabasse por ser o mistério e o silêncio que ficam.» É o trabalho das novas gerações, sem guerra santa senão aquela contra os nossos defeitos ou vícios…

Aliás, para para clarificarmos a ideia de “Fiel do Amor” e infiel, lembremo-nos do que disse em 1-7-87: «os infiéis que hoje importam são os que, pelas restrições económicas, educacionais ou políticas ou filosóficas, são condenados por toda a vida à infidelidade à sua própria vocação, àquilo de único a que vieram ao mundo, e afinal morrem sem ter vivido. Culpados somos todos se nos entretivermos com festas de pretérito: antecipemos as do futuro, que mais para isso somos portugueses e todos os que herdarem ou herdaram». Talvez que sob a sua orientação, nos seus últimos anos de vida, se pudessem ter feito alguns encontros ecuménicos ou festas do futuro, mas por diversas razões tal não aconteceu com a dimensão necessária, ainda que ocorressem conferências ou encontros bem luminosos.

Ora, já em 1964-65, num artigo da revista Espiral, ele estava consciente de que «de qualquer modo, pouco se fez quanto a teologia do Espírito Santo, em si própria, e nas ligações que parecem existir com atitudes como as do Tao ou as do Zen; talvez neste ponto o estudo teológico levasse a entender melhor a facilidade e a fecundidade das ligações dos portugueses dos Descobrimentos com as civilizações do Oriente e dessa base de partida para que realmente se unissem as duas formas de comportamento no mundo. Por outro lado, se afastariam muitas das incompreensões de [o Concílio de] Trento, muitos dos irmãos separados se poderiam reunir, muita hostil catequese se poderia pôr de parte». A actualidade destes escritos de Agostinho é tão evidente que custa vermos ora tanta festividade do Espírito Santo demasiado marcada pelo álcool ou a comesaida desregrada, ou apenas pelas exteriorizações cerimoniais e sentimentais, ou ainda tanta ausência dos tais estudos teológicos e dos encontros de aprofundamento espiritual que ele sonhava (e para o que escreveu tantas cartinhas aos amigos), dinamizados por «uma só ordem de todas as religiões, uma ordem fundada nas três liberdades tradicionais e essenciais de não possuir coisas, de não possuir pessoas e de não possuir a si próprio. Os três votos como diríamos. Esta Ordem nova para o mundo terá que tomar a si os três grandes jogos do universo: 1º criar beleza. 2º servir. 3º rezar, o que significa que todo o melhor do pensamento se concentrará na meditação do Espírito e na instauração do seu Reino (...) Nenhum instrumento de Quinto Império o dará sem oração. Só por ela virá esse império estendido a todas as nações do mundo, a todas elas revelando o espírito».

Anotemos a actualidade do desprendimento, do desapego e da simplicidade face à crise de reorientação económica e monetária em que a humanidade entrou. E quanto à oração, mais particularmente, a recente tradução do latim, contextualizada e comentada, que fiz com Álvaro Pereira Mendes, do Modo de Orar a Deus, de Erasmo, publicada nas portuenses Publicações Maitreya.

Apontados assim alguns dos materiais de construção (para que não seja só de sonho e letras…) da ponte que muitos desejam ou anseiam ver brevemente construída, e logo cruzada alegremente não só por ousados peregrinos ou heterodoxos místicos, ou religiosos já universalistas mas também famílias alegres e despreocupadas ou curiosos mas respeitadores turistas, resta-nos relançar o apelo a que cada vez mais se compreenda, estude e aprofunde a comparatividade de religiões e das práticas espirituais, quem sabe nascendo deste canto lusitano (ou de onde estiver a alma leitora…) um primeiro livro adoptado nas escolas e, talvez um dia, mundialmente no ensino cívico e religioso, sob a égide da Unesco e das Nações Unidas, cujo título poderia ser Manual da Unidade das Religiões, Manual da Religião (ou religiosidade) Planetária, Manuel da Educação Religiosa, Manual da religiosidade da Terra, ou o que vier a ser...
21- Eis, pois, oxalá, um convite interior aos mais conscientes da unidade do Espírito e com asas ou penas (e corações…), mais flamejantes...

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