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Aqui também, a criatividade na Arte do Pensamento presta homenagem ao Ser, e para além de autores já consagrados, damos espaço aos jovens valores que connosco queiram colaborar em vários temas.

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Da essência da morte

de Diogo Castelão Sousa

em 02 Mar 2022

  Recentemente, numa entrevista, ao ser questionado sobre a morte e o seu significado, Sobrinho Simões, notável cientista professor, responde, por sua vez, de forma singular a esta milenária questão. Diz ele o seguinte: que, quando era estudante, e começara a realizar as suas primeiras autópsias, nada no seu ofício lhe pareceu indicar ou ‘sugerir’ a ideia de morte. Só anos mais tarde, quando seu pai falece, é que percebe e realiza a morte do ‘outro’. Porém, confessa-nos, a ideia de sua própria morte ainda se encontrava demasiado remota, para poder ser reconhecida como tal. Deste modo, por último, relata-nos, que só quando finalmente lhe nasce a primeira neta, é que percebe e realiza dentro de si a sua própria mortalidade. Ora, o que isto nos parece indicar, é que a percepção da morte é, sobretudo, psicológica, e que se pode definir em três momentos. Em primeiro lugar, o contacto com um ou mais corpos, fruto da experiência de vida, traz-nos e indicia de certo modo a ideia de ‘morte’, mas não absolutamente, uma vez que não está, na maioria dos casos, associada a uma realidade afetiva, sentimental, que interfira com esse primeiro momento. Nesse sentido, podemos atender muitos funerais, ouvir várias vezes relatos de falecidos e, ainda assim, a morte passar-nos ‘completamente ao lado’.

Consequentemente, num segundo instante, quando finalmente nos é dado a conhecer e a contemplar a morte de um bem-amado, geralmente nosso progenitor, preceptor ou, em certos casos, filho, é que percebemos e captamos mais a fundo a morte que afeta a Humanidade como um todo, i.e., a ‘morte dos outros’. Deste modo, aqueles que julgávamos ‘imortais’ deixam de o ser, quebrando-se o feitiço que colocava a morte num plano meramente ideal, introduzindo-nos ou iniciando-nos, pela primeira vez, no ‘sofrimento coletivo’ da Humanidade.

Contudo, e apesar do seu valor, como sugere Sobrinho Simões, revela-se esta experiência ainda algo insuficiente, no que toca à assimilação da nossa própria morte, que nos escapa sempre, de algum modo. Assim, só nos é revelada a nossa mortalidade, por último, e em terceiro lugar, não quando vemos corpos, não quando nos deixa alguém querido, mas, pelo contrário, quando quem mais amamos nasce, enquanto é nossa a vez de partir, por decreto e lei da vida…

Esta é uma forma subtil e deveras interessante, de abordar e descrever aquilo que constitui um dos maiores mistérios humanos, associados à senda do conhecimento-sabedoria. Assim, a mente está intrinsecamente ligada a esta referência psicológica que lhe associamos, formando, por assim dizer, uma escala subjetiva, interior, que define e sustenta a nossa percepção da morte.

Assim, num ponto ou extremidade da escala, está a partida de um bem-amado, ao passo que permanecemos neste plano. Esta faceta representa o conhecimento da morte dos outros, ou da ‘Humanidade’. Por outro lado, no outro ponto ou extremidade da escala, jaz a consciência da nossa própria mortalidade, exaltada pelo nascimento de um rebento bem-amado, não de segunda mas de terceira geração, ou seja, que se encontre suficientemente próximo do nosso fim de vida, para nos dar a compreender que não teremos tempo suficiente, para o ver crescer, amar e testemunhar em vida…

Assim, estes dois polos complementam-se num todo, que é a percepção individual que temos acerca da morte, ao longo de uma vida. Desta perspetiva, pode-se dizer, ou sugerir, que a morte é, na realidade, um fenómeno psicológico.

Neste sentido, cria-se e projeta-se sempre uma distância temporal até esse derradeiro evento, a partir de uma imagem ou ‘referência mental’. Krishnamurti (§), falando nestes mesmos termos, admite, por sua vez, que a morte só é temida quando ‘adiada’. Se, a título de exemplo, um ser humano estiver realmente para morrer neste preciso instante, de acordo com o mesmo, nada o impede de não sentir temor ou dúvida, dado que apenas no adiamento mental residem as expectativas, incertezas e medos associados.

Assim, a morte precisa de ser encarada frontalmente, dado que é uma constante nas nossas vidas, com a qual todos temos de lidar, de uma maneira ou de outra. Por conseguinte, pensadores, místicos e filósofos, ao longo de toda a história, têm vindo a insistir, para além das experiências anteriormente referidas, na necessidade de tornar constantemente presente a ideia de morte, no nosso dia-a-dia, relembrando-nos de que ela existe, é real e iminente.

Assim, uns dirão para viver lembrando a morte (memento mori); outros, numa linguagem mais esotérica, ‘morrer para o que é’. Porém, neste pequeno texto, desejaria propor algo de diferente, e de mais desafiador, para reflexão nos tempos atuais: ‘viver como se já tivéssemos morrido’.

E o que quer isto dizer? No fundo, duas coisas: em primeiro lugar, notar, acolher e reverenciar o milagre que é a vida, apercebendo-nos, na sua transitoriedade, de quão sagrado, na realidade, cada momento é, e não apenas um em deterioração de outros, por mais banais ou discretos que possam parecer; em segundo lugar, evocar a ética, ou resposta à pergunta: «o que faria eu de diferente se me fosse concedida uma segunda oportunidade?».
  (... continua) 
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