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As personagens mais marcantes da história da humanidade reconhecem-se, pela sua criatividade interior, que impressiona e serve como farol aos que neles encontram o ideal espiritual.

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Erasmo

de Pedro Teixeira da Mota

em 14 Jul 2009

  Erasmo de Roterdão (1469-1536), o principal líder intelectual da Europa no século XVI nas primeiras quatro décadas, não teve por diversas razões (entre as quais a Censura e a Inquisição) entre nós a fortuna e a divulgação merecida, pese o valor dos seus discípulos portugueses, como Damião de Góis, André de Resende ou João de Barros, ou ainda a proximidade de Espanha onde uma verdadeira onda erasmiana inundou o país de múltiplas edições e traduções, apoiadas pelo Cardeal Cisneros e pelo próprio imperador Carlos V. É pois motivo de regojizo o parecimento em Portugal de uma tradução directa do latim de uma das suas obras mais significativas, escritas na época da sua maturidade, aos 55 anos, no ano da graça de 1524.

Erasmo

Numa Tradução Portuguesa

Intitulada Modus orandi Deum, Modo de Orar a Deus, ela foi traduzida por Álvaro Pereira Mendes e Pedro Teixeira da Mota, sendo apresentada e anotada por este último, que compôs ainda uma biografia e uma contextualização desta valiosa obra de espiritualidade renascentista, publicada nas edições portuenses Maitreya.
Como sabemos Erasmo, nascido na Batavia ou Holanda, os Países Baixos de então, em 1469, foi um clérigo agostinho mas que cedo pediu dispensa de estar fechado num mosteiro e partiu pelo mundo em busca do conhecimento e na demanda da verdade, passando por universidades, tipografias, cortes e grupos de humanistas franceses, ingleses e italianos, belgas e alemães, carregando uma importante obra que ainda hoje nos surpreende não só pela vastidão como pela profundidade e originalidade.

Se as obras de Erasmo mais conhecidas e editadas mundialmente são aparentemente de crítica social, tal como o Elogio da Loucura ou os Colóquios, elas contudo incluem sempre muitos ensinamentos culturais e espirituais, que surgem mais plenos nos seus tratados especificamente religiosos, como este Modo de Orar a Deus. Mas é bem evidente na sua obra que nada está desligado da intenção de mudar as mentalidades e os costumes da época, atraindo mais pessoas para o que ele chamava o ensinamento ou filosofia de Cristo, ou a douta piedade, a combinação entre a sabedoria antiga, em especial greco-latina, e os ensinamentos de Jesus de auto-conhecimento, de caridade, de amor, de concórdia, de paz.
O Modo de Orar a Deus, escrito no começo da Reforma, quando Lutero iniciara a cisão da Igreja Protestante, é um apelo a que, mantendo-se a unidade da Igreja Católica, se possam modificar os aspectos mais criticáveis da Eclésia, salvaguardando-se ainda o que é essencial, verdadeiro e útil, nomeadamente a oração individual, sentida e pessoal (cantada, pronuncida ou apenas pensada), realizada voluntária e conscientemente, e não por hábito ou superstição, e em comunhão com o corpo místico da Igreja ou de Cristo, constituído por todos os santos, sábios e fiéis, mortos ou vivos.

Erasmo chegou mesmo a chamar a esta obra Da invocação dos Santos, porque nela realça que anjos (§) e santos (que diz aliás serem mais do que os existentes no catálogo da Igreja, e tendo mesmo posto – num Colóquio - no Paraíso, o humanista Ioannes Reuchlin, mal ele morrera…) podem-nos auxiliar na nossa travessia do deserto ou do purgatório terreno, considerando a oração a forma de comungarmos com eles, seja intercedendo pelos outros, seja recebendo para nós forças e inspirações, seja cantando ou dando graças a Deus e usufruindo da sua luz e paz. Assim na sua obra surgirão invocações sentidas dos seus grandes amigos e mestres de espiritualidade John Colet, Jean Vitrier, John Fisher e Thomas More, curiosamente estes dois últimos santificados em 1935.
Seis meses depois de a obra ter saido em Outubro de 1524 e de cinco reedições europeias, Erasmo aumenta a sua extensão de quase um terço, tornando mais visível tanto a crítica a aspectos negativos da política e da expansão europeia como a afirmação do valor da oração (e em grupo) à Divindade, que não está não tanto no céu exterior, mas contida, acessível, no peito de cada um e de todos:
«Não se deve menosprezar o lugar dedicado à oração, nem a quantidade de pessoas que convergem na graça da oração. Deus ouve de muito melhor grado, de facto, as preces unanimente irradiadas por muitos, sobretudo se o celebrante as oferece como um vizinho de Deus; todavia, qualquer local é um templo para um cristão: o quarto, a cozinha, a oficina, o navío, o veículo, o cavalo, a casa de banho e mesmo a latrina. O próprio peito do cristão é templo de Deus, transporta consigo o seu altar, anda com Deus presente. Quanto mais te recolheres em ti próprio, mais ingressas no íntimo santuário, mais próximo te tornas de Deus».

Claro que o amor a Deus desagua naturalmente no amor ao próximo.
  (... continua) 
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